MANUAL DE TREINAMENTO
sobre uma política local de drogasNovembro de 1998
©European Addiction Training Institute, 1998
Esta tradução foi feita com a subvenção Ministério de Saúde e Bem-Estar Social (VWS) dos Países-Baixos
| Ernst Buning | Wim Buisman |
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SOBRE O INSTITUTO EUROPEU DE TREINAMENTO DE PROFISSIONAIS DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA (EATI)*
O Instituto Europeu de Treinamento de Profissionais da Dependência Química (EATI) foi fundado em 1994 pelo Centro Jellinek em Amsterdã, uma iniciativa apoiada por uma rede internacional de doze grandes instituições européias ligadas à pesquisa e atendimento aos dependentes de drogas.
O EATI organiza cursos internacionais de treinamento de profissionais na área da dependência química. Desde que começou, implementou 25 cursos a nível europeu para quadros multidisciplinares, grupos de prevenção, pesquisadores, consultores sobre a política de drogas, gerentes e diretores. No período de 1995-1998, 80% dos participantes eram provenientes dos países da Comunidade Européia. Os cursos de treinamento do EATI são ministrados por experts de sete países membros da Comunidade.
Os principais objetivos do Instituto Europeu de Treinamento de Profissionais da Dependência Química são:
O conceito chave do EATI é o estímulo ao aperfeiçoamento da qualidade(eficiência, efetividade, acesso) através do treinamento e da educação.
Em conjunto com sua Direção Consultiva, os (quatro) pontos de enfoque do treinamento em Atenas, Munique, Helsinque e Amsterdã, a sua rede de treinadores e o apoio financeiro da Comissão Européia(DG/V), o EATI está em condições de oferecer oficinas e cursos de treinamento de alta qualidade a preços módicos, para os participantes. No que diz respeito aos cursos, o EATI espera adquirir o certificado oficial de qualidade ISO-9001 no final de 1998.
* EATI - European Addiction Training Institute
Wim Buisman (1950), psicólogo, é o diretor dos programas Internacionais do Centro Jellinek. Trabalha na área nacional e internacional de abuso de entorpecentes há mais de dezoito anos, nas funções de especialista em prevenção, treinador, consultor de política de droga e chefe editorial dos Manuais sobre a Dependência.Em 1994 foi convidado a criar o Instituto Europeu de Treinamento para os Profissionais da Dependência Química (EATI). Atualmente, é o diretor do EATI e consultor de WHO, UNESCO e outros órgãos das Nações Unidas.
2. Os objetivos
1. Os participantes
2. A investigação dos fatos
3. A utilização de dados científicos
3. Os instrumentos
4. Implementação
5. Avaliação e Monitoramento
PARTE II: Questões práticas na organização do treinamento
1. Introdução
2. Medidas práticas
- Resumo geral do curso
- Os temas
- Os treinadores
- Os experts externos/ conferencistas
- Os participantes
- O local
- O orçamento
- O material de leitura
- O dever de casa
- Após o treinamento
- A programação social
3. Criando um clima excelente
- O equilíbrio
- O interesse ativo dos participantes
- O período de atenção
- Problemas de idioma no caso de conferencistas estrangeiros
- O processo de grupo
É com satisfação que apresentamos este manual de treinamento para uma política local a respeito de entorpecentes. Este manual é baseado na experiência que tivemos com três cursos sobre política local de entorpecentes organizados pelo Instituto Europeu de Treinamento de Profissionais de Dependentes Químicos (EATI). Na elaboração destes cursos e no nosso contato com participantes, encontramos muitos aspectos interessantes que merecem ser transmitidos, particularmente a dois grupos:
- Os legisladores e os responsáveis pelas políticas públicas sobre os entorpecentes
- Os organizadores do treinamento local
Esperamos que a parte I do manual, que descreve os ingredientes de uma política local a respeito de entorpecentes, sirva de inspiração para o primeiro grupo (os legisladores e os responsáveis pelas políticas públicas). Durante os três cursos organizados pelo EATI sobre o tema, ouvimos muitos exemplos interessantes sobre os processos de intervenção no uso de drogas e coordenamos inúmeros debates estimulantes sobre os vários aspectos da política local a respeito de entorpecentes. Acreditamos que esta informação seja valiosa para os responsáveis pelas políticas públicas em geral e, portanto, queremos colocá-los a par da nossa experiência.
Esperamos que o manual completo (parte I e parte II, a qual descreve as questões práticas da organização do treinamento) facilite o trabalho do segundo grupo (organizadores de treinamento local). O EATI ocupa-se da organização de cursos internacionais com participantes de vários países e a organização de cursos locais ou regionais não é do seu escopo. Contudo, compartilhando a experiência do EATI com outros, esperamos facilitar o desenvolvimento e a organização de cursos e treinamentos locais.
Uma vez que o EATI tem muito interesse em aperfeiçoar seus serviços, gostaríamos de que vocês fizessem comentários. E, se precisarem de sugestões concretas a respeito de cursos locais que planejam realizar, teremos prazer em ajudá-los.
Esperamos que gostem de ler este manual e desejamos que obtenham muito sucesso em seu trabalho!
Ernst Buning
Wim Buisman
Amsterdã, Holanda
Novembro de 1998
Introdução Embora a principal estrutura de uma política a respeito de drogas tenha sido traçada em espaços internacionais tais como as Nações Unidas, WHO, União Européia e no nível nacional pelo parlamento, as autoridades locais tendem cada vez mais a ter um maior controle da política a respeito de entorpecentes. Um bom exemplo desta tendência foi a criação em 1990, da Política de Entorpecentes das Cidades Européias(ECDP). Na primeira reunião da ECDP adotou-se a chamada "resolução de Frankfurt ". Uma das declarações foi a seguinte: "os usuários de drogas moram, em sua maioria, em cidades grandes ou se dirigem às cidades pois é nelas que está o mercado e todo o clima em torno da droga assim como os mecanismos de apoio. Consequentemente, são principalmente as cidades grandes as mais afetadas, mas a influência destas na política de drogas é modesta em comparação com o encargo que têm que suportar". A partir daí um grupo de cidades foi formado e uma vez que os efeitos do abuso de drogas pesavam mais sobre a comunidade local, tornou-se evidente que as autoridades locais deveriam estar à frente do desenvolvimento de uma política especial de entorpecentes. Este foi o desenrolar dos fatos que levaram muitos responsáveis pelas políticas públicas ao treinamento sobre políticas de drogas e entorpecentes, abrindo caminho para a troca de informações e conhecimento com outros responsáveis pela legislação local. Eles terão que desenvolver uma abordagem sob medida que melhor se adapte à situação local, mas mesmo assim, podem aprender muito com outros. Portanto, não é preciso começar de novo a cada vez.
Quando o EATI foi criado em 1994 em cooperação com o Centro Jellinek em Amsterdã, formularam-se os seguintes objetivos:
Portanto, a criação de cursos sob-medida para os responsáveis pelas políticas públicas originários de diferentes países europeus, coube perfeitamente dentro da estrutura dos objetivos acima mencionados. Três cursos foram organizados: o primeiro em Zandvoort, Holanda, em setembro de 1996; o segundo, em Barcelona, Espanha, em dezembro de 1997, e o terceiro em Hilversum, Holanda, em maio de 1998. O terceiro curso dava uma ênfase especial à política local em relação ao XTC. O número total de participantes nos três cursos foi de 35 pessoas. Estes vieram de vários países da Europa Ocidental, Oriental e Central. Em todos os cursos, os participantes tinham que fazer um dever de casa no qual descreviam uma determinada situação local e a medida adotada na sua cidade ou região. Durante o curso, eles tinham que apresentar o dever de casa em grupo e discutí-los com os participantes. Isto deu origem a muitas informações interessantes que foram utilizadas neste manual.
Na parte I deste manual discutiremos os ingredientes de uma política local a respeito
de entorpecentes. Em princípio, qualquer política a respeito de drogas tem que dar
atenção a quatro itens:
Baseando-nos nos quatro pontos acima, descrevemos o processo de criação de uma política local a respeito de entorpecentes. Passaremos a discutir o processo de formulação de objetivos. Este é um processo que envolve muitos atores e no qual, às vezes, ocorrem conflitos de interesse. Antes de definir os objetivos, é preciso que se tenha uma idéia muito clara do problema local em relação às drogas e isto pode ser obtido através de um trabalho de pesquisa de fatos. Além disso, na definição de objetivos pode-se recorrer aos dados científicos da literatura internacional sobre drogas.
Uma vez definidos os objetivos, o próximo passo é o de definir os instrumentos para se implementar a política. É preciso estabelecer a influência dos legisladores e dos respnsáveis pelas políticas públicas, os seus limites legais e que apoio podem obter. O terceiro passo é a implementação, em que é preciso ter certeza da utilização de redes de contato, do interesse positivo da mídia, e de que o público está sendo informado e envolvido, que aquele treinamento será dado, se for necessário. Os últimos passos são o da avaliação e monitoramento, absolutamente necessários para assegurar a implementação da política.
A parte II desse manual é destinada aos profissionais que estão desenvolvendo atividades de treinamento, a quem daremos várias sugestões práticas de como organizá-lo. É evidente de que se trata de sugestões e em outro contexto talvez estas tenham que ser aplicadas de outra forma. Discutiremos o esboço geral do curso, os temas de discussão, o que esperar dos seus treinadores e conferencistas e como recrutar os participantes. Também daremos atenção às instalações e serviços de apoio às conferências e o que pode ser feito depois do treinamento para ativar ao máximo os efeitos deste. É claro que o treinamento só é efetivo se os participantes são construtivos e o grupo funciona bem. Discutiremos uma série de questões que influenciam o clima geral do grupo, tais como, um bom equilíbrio entre os temas e a contribuição dos participantes, os fatores que influenciam o período de atenção e o processo de grupo.
Parte I
Os ingredientes de uma política local a respeito das drogas
1. Introdução
2. Os objetivos
2.1 Os participantes
2.2 A investigação dos fatos
3. Os instrumentos
4. Implementação
5. Avaliação e Monitoramento
Podemos encarar sob perspectivas diferentes o desenvolvimento de políticas em relação às drogas. Contudo, certas questões sempre estarão presentes numa determinada política. Estas são:
- Diminuição de oferta de drogas através do combate ao comércio de drogas
- Diminuição de demanda de drogas através da educação e informação
- Assistência àqueles que tenham se tornado usuários problemáticos e que queiram ficar abstinentes, através de aconselhamento, psicoterapia, farmacoterapia, desintoxicação, etc.
- Auxílio àqueles que não desejem ou não sejam capazes de deixar o uso das drogas para que reduzam os danos a eles causados e a outros provendo-os de agulhas e seringas limpas, metadona ou outra droga substitutiva, teste de drogas em festas, educação pelos pares, trabalhos como redutores de danos, etc.
Dependendo da filosofia dos programadores da ação política, da situação da cidade, da reação da população e da imprensa, pode-se dar mais destaque a uma das questões acima mencionadas. Entretanto, como isso não faz parte do escopo deste manual, nos limitamos a fazer breves comentários sobre cada uma delas.
A redução de oferta é a responsabilidade do sistema criminal de justiça. Algumas substâncias são proibidas ou então, proibidas em determinadas situações (álcool e a condução de veículos) e o papel da polícia é o de assegurar que estas substâncias não sejam usadas e não estejam disponíveis. Acredita-se que haja uma correlação entre a disponibilidade de uma substância, a quantidade de consumo e o número de problemas relativos ao seu uso. Então, o ponto de partida é que se for fácil comprar álcool, por exemplo em bares, supermercados, postos de gasolina, mais pessoas irão beber e mais pessoas terão problemas com o álcool. Essa idéia é baseada numa sociedade com um "centro de controle externo" em que o comportamento das pessoas depende de regras e regulamentos estabelecidos de cima para baixo. Numa sociedade com maior ênfase no "centro interno de controle", o comportamento das pessoas depende de deliberações individuais a respeito do que deva ser feito ou não. A redução de oferta poderá ter menos impacto neste tipo de sociedade enquanto que a redução de demanda ( prevenção e educação)poderá ser mais efetiva.
A redução de demanda é freqüentemente um aspecto pouco desenvolvido da política a respeito de drogas, e freqüentemente conhecida como "prevenção". Na prática, muitas
vezes pensa-se em prevenção em termos de "pendurar cartazes", distribuir folhetos ou mostrar um vídeo. A redução de demanda deve ser muito mais do que isso. É extremamente importante despender energia em prevenção de drogas, uma vez que o ditado "É melhor prevenir do que remediar" ainda é válido. Então, quais seriam os elementos de uma política em relação a drogas?
Em primeiro lugar, é preciso saber quem está envolvido na área, ver se escolas, profissionais que trabalham com jovens, pais, estão fazendo algo. Podem ser atividades coordenadas mas em geral são improvisadas, de momento, sem uma estratégia a longo prazo, sem uma realimentação sistemática, etc. É importante manter as partes envolvidas na questão em vez de distanciá-las alegando, p.ex., que não fazem um bom trabalho.
O papel dos responsáveis pelas políticas locais é fazer com que cooperem e também o de desenvolver uma estrutura lógica de prevenção.
Um aspecto importante do final dos anos noventa é a forma pela qual os jovens processam a informação. Eles são bombardeados por informações na escola, através da televisão, Internet, jogos de vídeo etc, etc. A informação a respeito das drogas tem que competir com tudo isso. Além disso, os jovens de hoje são bastante críticos e sabem se posicionar. Não lhes dê informações pouco concretas pois assim perderá a credibilidade!
Uma outra questão importante para ser levada em consideração é o fato de que muitos jovens podem pular de uma "ilha da realidade"para outra, quase da mesma forma de como fazem isto no computador e nos jogos de vídeo. Cada realidade tem sua própria forma de comportamento e suas próprias regras. Portanto, podem usar XTC numa noite de sábado e dançar até de madrugada e voltar para escola na segunda feira e estudar com afinco para obter boas notas. É importante que essas pessoas não sejam estigmatizadas como viciadas em XTC, sendo taxados de problemáticos. Por outro lado, é preciso ficar alerta para ver se o uso esporádico de drogas com o intuito de se divertir não se torna problemático.
Gostaríamos de discutir uma última questão: a criação de um ambiente positivo. Se os jovens forem criados num ambiente positivo é pouco provável que se envolvam em comportamentos prejudiciais. Na Holanda, o governo introduziu a matéria "Tomando conta de si próprio",
no currículo de todas escolas secundárias. São duas aulas semanais onde jovens de 12 e 13 anos aprendem a
cozinhar uma refeição saudável, discutir higiene pessoal, conversar sobre as pressões do grupo, pôr a teoria na prática desempenhando papéis especiais em teatro, e receber informações sobre álcool, tabaco, drogas ilegais e a discutir sobre isso. Estas aulas, mais do que qualquer coisa, preparam os jovens a funcionarem melhor na sociedade.
Uma outra medida tomada pelo governo holandês foi a introdução do Plano de Garantia de Trabalho para os Jovens(JWGP) . Todo jovem que termina a escola e não encontra trabalho dentro de seis meses, pode conseguir um trabalho através dessa entidade. Estes são apenas dois exemplos que vêm da Holanda, mas outros países têm programas similares. Em nível local, os programadores de ação política podem beneficiar-se de outros planos introduzidos pelo governo. Para mais informações a respeito da prevenção de drogas, referimo-nos ao Manual de prevenção de álcool, drogas e tabaco, publicado em 1998 pelo grupo Pompidou do Conselho da Europa e a Consutoria Jellinek (editado pelo Dr. Jaap van der Steel, com assistência de Deborah Voordewind, ISBN 990 74037089).
Toda política de drogas deve ter um "capítulo especial" sobre o que fazer com osusuários que queriam parar de usar as drogas. Pode ser um tratamento com o paciente externo ou interno ou uma combinação dos dois. Às vezes, os medicamentos são usados por um curto período de tempo para ajudar a combater os sintomas de abstinência. Durante o tratamento, o cliente participa de sessões de psicoterapia, assiste a cursos e é auxiliado na procura de um trabalho. Este tipo de tratamento é razoavelmente bem sucedido com as pessoas que terminam o tratamento (cerca de 50% não usa mais). No entanto, é preciso mencionar que somente 10% dos usuários estão interessados em fazer um tratamento desse tipo. E então, diríamos que para 50% daqueles 10%(=5% do grupo total) o tratamento é bem sucedido. Isto quer dizer que esse não deva ser feito? Acreditamos que haja um espaço definido para o tratamento para se largar as drogas, mesmo um tratamento mal sucedido poderia ter efeitos positivos na pessoa e pode melhorar as chances de sucesso numa segunda tentativa. Dentro do orçamento disponível, nem toda a verba deve ser encaminhada para os 10% acima mencionados. Os 90% usuários de droga que não querem parar de usá-la devem ter assistência. Isto pode ser feito em projetos de redução de danos.
A filosofia sobre a redução de danos foi introduzida em grande escala quando se tornou evidente que a Aids consistia numa maior ameaça para a sociedade do que as drogas. Acreditava-se que os usuários de drogas podiam propagar HIV pela população através de relações sexuais sem mecanismos de proteção. O argumento de que a sociedade deveria ser protegida levou às medidas para reduzir a expansão de HIV entre os usuários de drogas, que encontraram pouca resistência do público. Os principais exemplos de medidas de redução de danos são a distribuição de metadona, agulhas e seringas esterilizadas. Posteriormente, introduziu-se uma outra medida de redução de danos, as chamadas "drogas de festas". Em alguns países faz-se um teste de pílulas em grandes festas de dança. Há prós e contras em relação ao teste (ver o capítulo dos limites legais).
No resto deste capítulo discutiremos uma série de questões que podem fazer parte de um curso sobre a política de drogas, as quais passaremos a examinar:
- Como definir os objetivos de uma política local
- Quais são os instrumentos disponíveis e estes podem ser criados?
- Como se pode implementar a política e quem são os possíveis aliados?
- Como se faz o monitoramento e a avaliação da política para se assegurar o cumprimento dos objetivos?
Utilizaremos exemplos de vários cursos organizados pelo EATI. Na prática, você pode usar alguns exemplos ou apresentar outros que se adaptem melhor às necessidades específicas do seu grupo. Você pode pedir aos conferencistas externos que elucidem certos aspectos das questões acima mencionadas. A experiência e o conhecimento dos participantes também podem ser aproveitadas na discussão dessas.
Neste parágrafo, discutiremos, em primeiro lugar, os vários participantes envolvidos na definição dos objetivos. Subseqüentemente, discutiremos a necessidade de obter informação dos fatos, numa tarefa de "pesquisa ou descoberta dos fatos". Finalmente, aconselhamos que você faça um escaneamento da literatura científica a fim de estar bem preparado para a discussão e para evitar que o processo de definição dos objetivos se torne muito emocional e ideológico.
O processo de definição de objetivos de um política de drogas é muito complicado e envolve um número de participantes. É de grande importância que estes desenvolvam seus pontos de vista baseando-se em informações concretas e não somente em emoções e ideologias.
Alguns exemplos dos participantes envolvidos:
Cada participante tem a sua própria agenda e interesse e os interesses de grupos diferentes podem entrar em conflito. Passaremos a discutir os interesses de vários participants e os fatores que eles gostariam de ver integrados numa política local a respeito de drogas.
Os políticos locais e os responsáveis pelas políticas públicas
A questão das drogas é apenas uma pequena parte da responsabilidade total dos políticos municipais. Sua maior tarefa é fazer com que a sua cidade seja um lugar agradável para se viver e trabalhar. Os habitantes de uma cidade devem se sentir seguros. Para assegurar um número suficiente de empregos, as empresas devem achar a cidade X como um bom lugar para fazer negócios. Os comerciantes precisam sentir que este lugar também é bom para negócios. A questão da droga pode pôr em perigo estas atividades: os comerciantes ameaçam fechar as lojas se houver muitos usuários de drogas por perto, os fregueses fogem; os habitantes de certos bairros passam a se queixar de que não se sentem seguros em casa e que estão sendo molestados pelos usuários e traficantes; as grandes empresas não vão querer se estabelecer na cidade porque esta tem má reputação. Estas são as grandes preocupações dos políticos municipais. Naturalmente, alguns podem também se preocupar com a situação social e com a saúde dos indivíduos usuários de drogas e com a expansão da Aids, mas em geral, essa questão é secundária à questão da qualidade de vida da cidade.
A comunidade
Cada vez mais, a comunidade tem um papel importante na formulação da política local a respeito de drogas. Ela pode ter tolerado os transtornos causados por usuários de drogas e por traficantes de drogas durante muito tempo e então, um dia darão um basta. Em algumas cidades, as organizações de bairro podem até terem se tornado violentas contra os usuários e os traficantes de drogas, criando a sua própria rede de vigilância e atuando como polícia, juiz, e sendo punitiva. Este tipo de desdobramento é perigoso e põe em risco uma sociedade democrática. Mas, por outro lado, isso é compreensível, principalmente quando os políticos municipais e os responsáveis pelas políticas públicas locais negligenciaram a questão das drogas por muito tempo e perderam o controle da questão. Não é de se admirar que as reações dos representantes de bairro sejam bastantes emocionais e muitas vezes baseadas em experiências diretas. Numa determinada ocasião, os habitantes de uma cidade marcharam até a prefeitura e esvaziaram um balde de agulhas e seringas na mesa do vereador, alegando que tinham encontrado as agulhas e seringas nas ruas e becos da cidade. Na realidade, as seringas não eram do tipo usado pelos usuários de drogas injetáveis. Algumas pessoas tinham comprado e sujado as seringas e dito a outras pessoas que elas tinham sido encontradas na rua.
Numa outra cidade, uns cidadãos indignados marcharam, gritando, para a casa de um traficante de drogas e ameaçando de entrar e prendê-lo. Acontece que eles foram para o apartamento errado e que a pessoa que morava lá não tinha nada a ver com drogas! Com esses exemplos não queremos dizer que os bairros não tenham nenhum problema concreto com os usuários de drogas e com os traficantes. Pelo contrário, eles mostram o quanto as pessoas podem se sentir desesperadas quando sentem que não lhes dão ouvidos.
O objetivo das pessoas é residir em um lugar onde se sintam seguros para sair e onde as crianças possam caminhar sem se deparar com usuários se injetando, traficantes de drogas ou criminosos.
Instituições de apoio
As instituições de apoio dão atenção ao interesse individual dos usuários de drogas e as questões gerais de saúde pública. A grosso modo, podemos distinguir duas categorias de instituições:
- Instituições que esperam que os clientes se adaptem ao que elas lhes oferecem
- Instituições que adaptam seus serviços às demandas dos clientes que usam drogas
As instituições da primeira categoria são conhecidas como de "difícil acesso" apresentando serviços de boa qualidade para um grupo relativamente pequeno. Têm objetivos claros e limitados (por exemplo: este ano queremos tratar de 50 pessoas para que parem de usar drogas) e ficam satisfeitas quando alcançam seu objetivo. O "grande" mundo lá fora não lhes interessa muito desde que haja um número suficiente de pessoas interessadas no que elas têm a oferecer. Para eles, é importante ter uma lista de espera, e dessa forma, o negócio está assegurado.
As instituições da segunda categoria são conhecidas como de "fácil acesso" e / ou são instituições orientadas para a saúde pública. Procuram atingir o maior número de pessoas possível, oferecem um tipo de atendimento que os ativos usuários de drogas apreciam (serviços de extensão, provisão de metadona, agulhas e seringas), freqüentemente chamados de "redução de danos". Na formulação dos seus objetivos levarão o "grande"mundo lá fora em consideração e, portanto, dão atenção à questões como os problemas de drogas nos bairros, aspectos da saúde pública (prevenção da expansão de Aids, hepatite, tuberculose e outras doenças infecciosas). Também administram o dia a dia de cada usuário de drogas aceitando o fato de que este ainda usa drogas.
Isto não quer dizer que uma categoria é melhor do que a outra. Na maioria das cidades, a duas categorias de intervenção estão disponíveis. Quando desenvolvemos objetivos para uma política local, os dois pontos de vista devem ser incorporados.
O sistema de justiça
O sistema local de justiça (polícia, promotoria pública e o sistema judiciário), têm a ordem pública como seu primeiro objetivo. Entretanto, em muitos casos, eles sabem que resolver um problema num local da cidade pode levá-los a um outro problema. Cada vez mais o sistema de justiça procura trabalhar com os sistemas de apoio e representantes de bairros a fim de tentar administrar os problemas juntos (abordagem integrada). Tal abordagem integrada significa que a justiça adapta seus objetivos de "somente questões de ordem pública" para "ordem pública e atendimento aos usuários". A polícia como assistente social, pode gerar situações novas e confusas numa cidade. Alguns poderão argumentar que é melhor que eles se limitem ao escopo do seu trabalho enquanto que outros alegam que os policiais conhecem bem os usuários de drogas e que suas intervenções serão mais efetivas do que a de um assistente social que nunca "está disponível quando se precisa dele".
Os usuários de drogas
Os usuários de drogas deveriam fazer parte do processo de desenvolvimento dos objetivos de uma política local a respeito das drogas: eles são os elementos principais e a política não irá
funcionar se não se ouvir o que têm a dizer. Mas, porque as drogas são ilegais e em alguns lugares o uso de drogas é considerado uma ofensa criminal, não será fácil conseguir que os usuários queiram se envolver no programa. Receiam se expor e serem identificados como usuários de drogas ilegais. Muitas vezes, os usuários estão muito ocupados em obter drogas e não querem dar prioridade à programação de políticas. Um outro problema a respeito dos usuários é que freqüentemente são dependentes de médicos e agências de apoio. Podem recear serem banidos do tratamento se fizerem muitas críticas. Embora isso não seja nenhuma ameaça, só o receio que isso possa ocorrer pode contribuir para que fiquem calados.
Os objetivos de uma política de drogas para os usuário incluem: o uso de drogas por um bom preço e boa qualidade, a possibilidade de conseguir agulhas e seringas esterilizadas, poder usar drogas num contexto sem problemas, obter suficiente apoio financeiro para comer e viver, ser tratado como ser humano, e não como um "viciado", tendo ajuda se necessário.
Os legisladores
Os legisladores têm dificuldade em manter todos os participantes contentes e ao mesmo tempo, em assegurar o desenvolvimento de uma programação política de boa qualidade. Eles terão que analisar e usar os vários ingredientes apresentados pelos diferentes participantes, para fazer numa primeira lista de formulação de objetivos.
Em resumo, os diferentes participantes possivelmente podem apresentar os seguintes ingredientes para a formulação dos objetivos de uma política local de drogas:
Uma vez que se sabe o que querem os diversos grupos, é hora de ter uma melhor idéia da situação "real". Antes da formulação geral dos objetivos finais de uma política, é preciso saber exatamente o que está se passando na cidade. Isto quer dizer que é necessário partir para um trabalho de investigação dos fatos para se obter o máximo de informação possível e neste processo é preciso ter em mente as seguintes questões:
- Qual é a situação atual a respeito das drogas na cidade? Quantas pessoas são usuárias, que drogas estão sendo usadas? Há uma tendência em termos de aumento, estabilização ou declínio do número de usuários, novas drogas no mercado, novos padrões de uso de drogas?
- Quantas pessoas estão trabalhando presentemente na área de drogas e qual é o grau de envolvimento de outros? (hospitais, médicos, instituições de trabalho social, universidades, etc)?
- Qual é o orçamento atual, quanto se gasta e quem tem influência no uso do dinheiro? Que atividades ocorrem na área da droga que não são pagas com a verba do orçamento?
Este trabalho de investigação não é uma atividade científica e deveria ser realizado em um período relativamente curto de tempo. É evidente que há o risco de se obter informações pouco exatas. Neste caso, parte do objetivo da política de drogas deve ser o de estabelecer um sistema adequado de monitoramento.
Nos próximos parágrafos vamos nos aprofundar nos vários componentes do trabalho de investigação de fatos.
A situação atual a respeito das drogas
É importante ter uma idéia clara da situação atual a respeito do uso de drogas. Às vezes, a imagem do "problema de droga" numa cidade é criado por um pequeno número de usuários que tem uma vida muito instável e caótica, sem teto, com problema psiquiátricos, sofrendo de doenças. Pode ser que sejam muito poucos mas porque são visíveis, apresentam a imagem dominante de terem um "problema de drogas". É importante colocar as coisas na perspectiva correta. Há um grande número de métodos disponíveis para se estimar o número de viciados em drogas, baseados em dados existentes. Um dos métodos usados em Amsterdã é o chamado "captura-recaptura". Neste método, comparam-se três números:
- o número de pessoas que receberam metadona dos médicos, do Serviço Municipal de Saúde de Amsterdã e o CAD (Consultório para Álcool e Drogas),
- o número de viciados em heroína presos pela polícia de Amsterdã e
- o número de pessoas que estavam no grupo (1) e (2).
Usa-se a seguinte fórmula:
Grupo (1) x Grupo(2)
_________________ = número estimado de viciados em heroína em Amsterdã
Grupo (3)
Este método pode ser usado em diferentes subgrupos (homem/mulher, vários grupos etários, várias nacionalidades etc).
Um outro método é o da técnica da "bola de neve": pede-se aos usuários de drogas para mencionarem outros usuários que conheçam e as suas características. Subseqüentemente, pede-se para que eles ajudem a fazer contato com outros usuários. Indaga-se se já estiveram num hospital, se já foram presos pela polícia, se já tomaram "overdose", tiveram contato com alguma instituição específica, etc. Em seguida, também pergunta-se a eles quantos usuários de drogas conhecem e quantos destes foram presos pela polícia, etc. Quando se faz esta pergunta para um grande número de pessoas, pode-se calcular uma percentagem média de usuários de drogas que estiveram numa determinada situação. Por exemplo, se - de acordo com a informação da amostra- uma média de 20% dos usuários de drogas foram presos pela polícia num ano determinado e os registros policiais indicam que eles prenderam 2.000 viciados em drogas naquele ano, você pode usar isso como uma indicação de que possivelmente haja cerca de 10.000 usuários na cidade.
Uma outra indicação importante vem das instituições de apoio
A maior parte destes dados estará prontamente disponível.
Se a coleta sistemática de dados sobre a infecção HIV tiver sido feita, esta também poderá ser um indicador útil. É preciso se dar conta de que os estudos de soro prevalência podem ter selecionado um subgrupo específico de usuários de drogas e portanto, é preciso ter cuidado em não extrapolar estes dados para todo grupo.
Os dados vindos do sistema de justiça também são relevantes: quantas prisões foram efetuadas, qual era a percentagem relacionada a drogas e quantas pessoas estavam envolvidas?
Educadores de rua e redutores de danos sempre têm muita informação relevante que podem compartilhar com você. Entretanto, é possível que alguns não coletem a informação tão sistematicamente quanto os pesquisadores. Seria aconselhável convidá-los para uma reunião e pedir-lhes que contem como o problema da droga está se desenvolvendo, que tendências vêem, se há novos usuários etc. É possível se obter mais informações em duas horas de conversas com os educadores de rua e redutores de danos do que contratando pesquisadores caros e/ou lendo grossos relatórios oficiais.
Se possível, os próprios usuários de drogas podem ser utilizados como fonte de informação. Mais uma vez, eles podem ser convidados para uma reunião (tal como os educadores de rua e os redutores de danos).
Amsterdã introduziu "ANTENNE" e com este instrumento de avaliação, os dados qualitativos e quantitativos são coletados nas escolas e através de "reuniões" com usuários de drogas. Uma vez que o mesmo método é usado por um período de anos, é possível avaliar as tendências. Os resultados de ANTENNE foram de muito valor para o programadores da política de drogas em Amsterdã . Mais informações estão em vários documentos mencionados.
A força de trabalho
É importante saber com clareza quantas pessoas estão trabalhando direta ou indiretamente na questão de drogas. Todas as instituições de apoio podem dar uma indicação da sua força de trabalho no campo(profissionais pagos, gerentes, voluntários). O sistema de justiça poderia indicar uma percentagem do tempo que despendem com a questão de drogas e quantas pessoas do seu grupo estão ocupadas com isso. Também pode-se entrar em contato com Universidades para ver se há pesquisas sendo feitas sobre o assunto e se o tema "drogas" faz parte do currículo dos alunos e se for o caso, quantas pessoas ocupam-se com isso. As escolas de Enfermagem e de Serviço Social também podem ser abordadas para que indiquem que percentagem de suas atividades estão ligadas à questão de drogas. Organizações de bairros devem ser perguntadas sobre qual a percentagem de suas atividades está relacionada ao assunto drogas. Finalmente, é preciso calcular o número de pessoas ligadas à programação de ações políticas.
Provavelmente haverá um verdadeiro exército de pessoas ocupadas com a questão da droga. Isto é muito importante no desenvolvimento de uma política. Todas essas pessoas podem contribuir para o sucesso da política, desde que ajam da forma correta!
O orçamento
Parte do trabalho de investigação de fatos tem a ver com o orçamento disponível e particularmente com a verba claramente atribuída às questões relativas ao uso abusivo das drogas. É possível que esta tenha sido especialmente destinada pelo governo federal. Além da verba para estas questões relativas àsdrogas, possivelmente, haverá outras disponíveis tais como a verba para renovação de bairros em decadência, verba para aumentar a segurança, para combater a pobreza e desemprego, etc.
Os objetivos da política podem ser adaptados ao orçamento disponível, ou então pode-se tentar levantar dinheiro suficiente para realizá-los. Em alguns casos é aconselhável ter objetivos de curto ou longo prazo e estabelecer as prioridades dentro do orçamento disponível.
Avaliação rápida
Recentemente, Gerry Stimson e seus colegas elaboraram um documento para a Organização Mundial de Saúde sobre "Avaliação Rápida". O "Esboço para o teste de campo" intitulado "Avaliação Rápida e o guia a respeito do uso de drogas injetáveis" foi publicado em fevereiro de 1998(mais informação pode ser obtida pelo email: balla@who.ch). A Avaliação Rápida avalia o problema da droga ( avaliação sistemática do tipo, profundidade e escopo do problema) assim como a questão dos recursos (fundos, pessoas, prédios, conhecimento).
A vantagem da avaliação rápida é a sua velocidade, sua efetividade de custo e a possibilidade de trabalhar com os dados existentes. Os que estão ocupados com a avaliação rápida utilizam uma larga variedade de fontes que são checadas constantemente durante o processo. Isso quer dizer que é possível obter o máximo de relevância nas intervenções e em questões práticas. O objetivo é a eficiência ao invés da perfeição científica.
Recomendamos esse livro para aqueles que desejarem ter uma idéia mais ampla sobre a situação local das drogas.
2.3 Utilizando dados científicos
Na definição de objetivos bem dosados, é necessário ter a informação da pesquisa científica sobre os riscos relativos a várias drogas, dados sobre morbidade e índices de mortalidade relacionados a certas substâncias. O uso adequado destes dados deve levar à inclusão de álcool e tabaco na política local de drogas, uma vez que - de acordo com a pesquisa - estas duas substâncias ainda são os grandes "assassinos". Os dados a respeito do uso de drogas tipo maconha, o risco relativo das chamadas "drogas leves", a possibilidade de que o uso destas possa levar ao uso de drogas pesadas, podem ser encontrados em artigos científicos e serão úteis nos debates sobre a política local de drogas. É preciso se dar conta de que os dados científicos freqüentemente podem ser objetos de várias interpretações e não são conclusivos e isso quer dizer que cada um procura a explicação que melhor se adapte à sua visão. Um bom exemplo são os dados da pesquisa sobre os efeitos da troca de agulhas e seringas. Os dados da Europa e da Austrália indicam que os esquemas de troca acabam por acessar usuários de drogas injetáveis, reduzir o comportamento de risco e não levam a um aumento da injeção de drogas. No entanto, estes dados não foram conclusivos no que diz respeito ao efeito da retenção da epidemia de HIV. Isto foi usado(ou abusado) pelos programadores americanos de ação política para recusar apoio para os programas de troca de agulhas e seringas nos Estados Unidos.
Levando-se em consideração os desejos dos vários participantes, a informação obtida no trabalho de investigação dos fatos, e a exploração da literatura científica, será possível fazer um esboço dos objetivos sobre a política local de drogas.
Neste parágrafo discutiremos os instrumentos que os legisladores têm à disposição. Examinaremos a influência que têm, aos limites legais para a implementação das atividades planejadas e os instrumentos para se obter o apoio dos atores em questão.
Influência dos legisladores e dos responsáveis pelas políticas públicas
A influência dos legisladores e dos responsáveis pelas políticas públicas dependerá muito da situação política e do orçamento. Parece que a influência deles está em igual proporção ao tamanho da verba. Um responsável pelas políticas públicas que está muito próximo a políticos bem conhecidos, pode-se dar conta da sua influência extra. Mas, se o tal político não for reeleito, este perderá instantaneamente sua influência. Em algumas cidades, os responsáveis pelas políticas públicas não dependem diretamente dos chefes políticos. Podem "sobreviver" a muitas mudanças políticas. A vantagem, é que podem desenvolver muita experiência. A desvantagem, é que estão mais arraigados ao seu modo de agir e menos propensos a introduzir mudanças baseadas em pontos de vista políticos diferentes. Os responsáveis pelas políticas públicas devem se dar conta de sua posição e procurar a estratégia mais favorável à sua situação e a que mais favoreça a implementação dos objetivos.
Os limites legais
Alguns objetivos não poderão ser postos em prática por causa dos limites legais. Durante muito tempo, a prescrição de heroína era impossível por questões legais. No entanto, as autoridades suíças encontraram uma forma de lidar com esta questão e até a presente data, esta prescrição como uma experiência científica, é implementada e planejada em um número de países. Em alguns países, a provisão de agulhas e seringas esterilizadas era impossível por causa de obstáculos legais. Muitas vezes, foi preciso mudar as leis ou a polícia tinha que fazer vistas grossas para estas atividades.
Em alguns países, a polícia pode estabelecer as prioridades, em consulta com o procurador público. Neste caso, podem optar por ignorar pequenos delitos(tal como a posse de pequenas quantidades de drogas) e se concentrar em problemas maiores, tais como, o tráfico em larga escala, o crime, os grandes transtornos causados pelos traficantes, etc). Em outros países, a polícia não tem permissão ou disponibilidade para estabelecer prioridades e entra em ação cada vez que estão cientes de atividades ilegais. Isto pode levar a uma estranha situação em que a polícia interfere com os usuários de maconha e deixa de lado os grandes traficantes de heroína.
Em alguns países, introduziu-se o teste de pílulas em grandes eventos de dança. Este é um bom exemplo do trabalho dentro dos limites legais. Em todos os países, as pílulas contendo xtc ou outros estimulantes como anfetamina, são ilegais. Em alguns países, acredita-se que os efeitos negativos das drogas distribuídas em festas sejam causados pela má qualidade das drogas e o uso inadequado destas. Através do serviço de testes, esperam abolir as drogas ruins das festas e poder se comunicar com os usuários e desta forma, chegar a fazer algum trabalho de prevenção. Pede-se à polícia para não se envolver com os usuários, uma vez que com um envolvimento ativo da polícia não seria possível testar as pílulas. As pessoas que são contra os testes dizem que os testes podem transmitir uma imagem errônea para os jovens (como se fosse normal usar drogas desde que a qualidade seja boa), e que a polícia pode suspender a disponibilidade de drogas nos eventos de dança.
Obtendo apoio
Os objetivos de uma política local de droga só podem ser realizados se a cooperação dos vários participantes da área estiver assegurada. A polícia, as instituições de apoio e os institutos de pesquisa podem prover os instrumentos principais para a implementação da política.
A polícia
O corpo policial deve estar disponível e ser capaz de cooperar na realização dos objetivos. Deve contar com um quadro de policiais cuja atitude deve ser coerente com os objetivos gerais. Por exemplo, se a cidade faz a opção de introduzir uma política de redução de danos e de abrir as chamadas " salas de uso seguro", deve ficar bem claro que a polícia não irá interferir nesta política, e deixará estes "espaços" em paz.
Talvez seja necessário oferecer um treinamento adicional à polícia para se assegurar de que os policiais tenham suficiente informação e a atitude adequada à filosofia da política de drogas.
As instituições de apoio
As instituições de apoio devem estar disponíveis para dedicar seu tempo de modo que os objetivos da política possam ser alcançados. Isso significa que a verba tem que ser redistribuída para novos projetos e novas intervenções. Isto quer dizer que possivelmente, outras atividades que eram úteis no passado mas são menos relevantes hoje, podem perder o apoio financeiro. Isto significa que algumas pessoas terão que ser treinadas para um outro tipo de trabalho. Muitas vezes terão dificuldades com isso, uma vez que estão arraigados aos seus próprios hábitos e pensam que um determinado tipo de tratamento é o único que serve. É importante ressaltar que a atitude deles tem a ver com um comprometimento positivo e procurar interessá--los o máximo possível nas mudanças, a fim de que se sintam parte do processo.
Às vezes, as instituições de apoio poderão requisitar mais recursos a fim de preencher as demandas dos políticos. Devem apresentar propostas sólidas na qual indicam o que pretendem fazer com a verba atual, como vão usá-la para novos projetos e quanto precisam para as novas atividades.
Institutos de pesquisa
Os institutos de pesquisa (freqüentemente ligados a uma universidade ) podem ter um papel importante na coleta de dados e no feedback aos responsáveis pelas políticas públicas. Os institutos podem fazer muito com a sua verba. Para a Universidade é importante "servir à sociedade" e a pesquisa científica "neutra" dá informações que tem um impacto imediato no processo de programação política.
Após a definição de objetivos e a obtenção de uma idéia clara acerca dos instrumentos à disposição, é o momento de se implementar uma nova política.
Passaremos a discutir inúmeras questões:
- Fazendo a rede funcionar
- O papel da mídia
- Informando o público
- Treinando
- Como gastar dinheiro de maneira adequada
Fazendo a rede funcionar
Como mencionamos antes, há um número de atores na área da droga. E como há tantos interesses diversos, o terreno também pode ser fértil para criar conflitos. Não é do interesse de ninguém despender energia em discussões emocionais. Todos devem ser ouvidos e levados à sério. Se os pontos de vista não forem aceitos, é preciso deixar claro porquê.. Há muitas técnicas para se fazer uma rede funcionar. Os ingredientes básicos são: respeito mútuo, o fornecimento de informação suficiente a todos, estar aberto à sugestões, saber ouvir, ser claro, ser paciente. Evidentemente, nem todos participantes são iguais. Um chefe de polícia terá mais influência do que, p.ex., a mãe de um usuário de droga. No entanto, os dois são importantes na implementação de política de drogas. Você terá que organizar regularmente reuniões com todos os participantes. Em Frankfurt, eles tiveram uma boa experiência com as "sessões de segunda-feira de manhã ". Participavam das sessões, políticos municipais, programadores de ação política, representantes da Justiça, representantes de bairro e até diretores de um banco situado perto da cena ligada à droga.
O papel da mídia
A mídia pode ter um papel crucial na política local de drogas. A questão das drogas sempre fornece um material suficientemente interessante para a mídia, seja no jornal ou na televisão ou no rádio. É importante que o setor de política de drogas faça uso adequado deste interesse, é importante que haja uma boa relação entre os responsáveis pelas políticas públicas e a mídia. Isso significa que tem que se respeitar, aceitar que tem responsabilidades diferentes e concordar em fazer negociações abertas. Gostaríamos de mencionar um número de "regras" a respeito do contato com a mídia:
Informando o público
Uma parte muito importante da implementação é informar o público. Isto pode ser feito de várias formas:
Provavelmente, seria aconselhável usar todos os métodos acima mencionados, mas comece com as reuniões "cara a cara" com os líderes da comunidade. Eles lhe darão retorno a respeito dos seus planos e lhe falarão sobre os melhores métodos de informar o público. O público não deve ser tomado de surpresa quando tomar conhecimento pela mídia de que um centro para usuários de drogas será aberto na sua comunidade. Portanto, é importante desenvolver uma boa estratégia de informação do público e passe algum tempo fazendo isto. Também é importante que as pessoas que dão informação (por exemplo, numa "reunião informativa") saibam sobre o que estão falando, tenham influência suficiente na hierarquia e deixem claro ao público de que ele está sendo levado a sério. Deixe espaço para fazer algumas alterações. Informar uma comunidade de um "fato consumado", é procurar problema. Se você deixar algumas questões para a discussão, terá algo para negociar e o público sentirá que tem influência (o que de fato, tem). Por exemplo, o fato de que vão abrir uma clínica no bairro, pode não ser passível de discussão. No entanto, a localização exata e o horário exato de funcionamento ainda podem ser discutidos.
O treinamento
Já mencionamos a importância do treinamento da polícia e das instituições de apoio. É importante que se despenda tempo e dinheiro com isso. Durante o treinamento você poderá
obter mais entusiasmo e motivar as pessoas para despender energia na realização dos objetivos definidos. O treinamento deve ser curto e prático. Deve ser dirigido para grupos grandes, em vez de só para duas ou três pessoas. Se forem introduzir uma nova política de drogas, é aconselhável organizar uma conferência de um dia, apresentada pelo prefeito ou outro político influente. A mídia deve cobri-la e deve haver espaço suficiente para a interação entre os vários participantes e para discussão. Esta conferência deve sempre incluir uma atividade social e ser encerrada, por exemplo, com uma recepção.
Dispendendo dinheiro de maneira adequada
Você só pode gastar o dinheiro uma vez. É importante estabelecer as prioridades. Procure sempre encontrar outras fontes antes de dar dinheiro para um projeto especial. A maior parte das intervenções precisam ser feitas por um número de anos. Tenha a certeza de que é capaz de assegurar a continuidade. Se não houver dinheiro para um maior período de tempo, os participantes devem estar cientes de que se trata de um apoio financeiro de tempo determinado.
Uma vez que se implementa a política de drogas, esta deve ser abertamente monitorizada e avaliada. Por isso, os objetivos devem ser operacionalizados e formulados de modo que possam ser avaliados. Alguns objetivos devem ser avaliados em números claros. Por exemplo, se você pretende atingir 500 usuários de drogas injetáveis com troca de seringas, isso é uma simples questão aritmética. Será mais difícil medir, p. ex., se os usuários de drogas são tratados como seres humanos. Como é que você faz isso?
Será possível avaliar a maioria dos objetivos. Alguns exemplos:
Estes dados devem ser coletados sistematicamente e publicados de forma tal que penetre na mídia e no público em geral. As pessoas não gostam de serem iludidas com dados. Se alguns objetivos não forem alcançados, é preciso, então, propor medidas para alcançá-los; se o objetivo era muito ambicioso, isto também deve ser reconhecido.
MEDIDAS PRÁTICAS PARA ORGANIZAR UM TREINAMENTO
2. Medidas práticas
Criando um excelente clima
Introdução
Na parte II deste manual descrevemos as questões práticas da organização de um treinamento. No capítulo 2, descreveremos os passos concretos que devem ser realizados. Em primeiro lugar, descrevemos a importância de se estabelecer um horário e o esboço geral do curso. Isto deve ser feito pelo menos seis meses antes do início do curso e será sua estrutura durante os meses que se seguem. É preciso checar o esboço geral com os colegas e com alguns participantes em potencial a fim de se ter certeza de que se está no bom caminho. Uma vez que este é aceito, pode-se passar à elaboração das outras partes, tais como: garantir o orçamento, selecionar os temas, os treinadores, estipular a data, reservar acomodações no hotel e a sala de encontros, selecionar os conferencistas, os participantes em potencial, e ter certeza de que tudo pode ser realizado dentro do orçamento disponível. Pode-se também pensar num programa social com eventos interessantes ocorrendo na sua cidade aos quais os participantes gostariam de assistir. E, quando a data do curso estiver se aproximando, é bom entrar em contato pessoal com os participantes e pedir-lhes que façam um "dever de casa".
Durante o curso, o organizador deve estar disponível para responder a questões de ordem prática, para apoiar os treinadores, etc, e depois do curso, é importante assegurar-se do feedback, não só dos participantes como também dos palestrantes e treinadores. Trata-se de uma informação importante para os cursos que se seguem.
No capítulo 3 desta parte do manual discutiremos como criar um clima ideal no grupo para facilitar a aprendizagem e a interação. Discutiremos o equilíbrio do programa, métodos para assegurar o interesse ativo dos participantes e para prender a atenção deles. Também discutiremos a questão do idioma no caso dos conferencistas que não falarem o idioma dos participantes. Finalmente, discutiremos vários aspectos do processo de grupo.
O objetivo desta parte do manual é o de ajudar os organizadores do treinamento no processo da elaboração de um curso. O manual dará uma orientação a respeito das diversas medidas a serem tomadas. É preciso incluir listas de controle quando isto for apropriado. As nossas listas são somente sugestões. É possível que estas listas precisem ser adaptadas a cada situação. Este será o curso do organizador local e o seu sucesso depende da sua criatividade e grau de envolvimento. Terá que trabalhar muito, mas se tudo correr bem, será seu sucesso pessoal.
2. Medidas práticas
Esboço geral do curso
O primeiro passo a seguir é fazer um horário e um plano geral do curso no qual você descreve:
- uma lista dos diversos temas que gostaria de discutir no curso
- uma lista dos possíveis treinadores
- uma lista de várias pessoas que poderia convidar para dar palestras
- o perfil dos participantes que gostaria de ver no seu curso
- uma lista de locais possíveis com os prós e os contras de cada um
- uma proposta preliminar de orçamento
Neste primeiro esboço você pode tentar fazer um programa "ideal" preliminar
(preenchendo o horário, p. ex., dia 1 das 9:30 até às 11:00) que inclui os seguintes
pontos:
O primeiro esboço deve ser discutido com um número de colegas para verificar se você está no "bom caminho".
Os temas
A questão da política de drogas pode englobar aspectos diferentes. Por um lado, ela diz respeito a um bom sistema de atendimento dos usuários de drogas, mas também deve se concentrar na qualidade de vida de uma cidade e no impacto do problema da droga para os "não-usuários", tais como, os habitantes de bairros problemáticos, os pais, companheiros e filhos de usuários. Isto deve ser discutido dentro da categoria da questão "Saúde pública ou ordem pública". Ainda que os dois itens não sejam mutuamente excludentes, é natural que alguns responsáveis pelas políticas públicas optem por dar mais ênfase a um deles.
Outro tema importante na discussão da política local de drogas é a questão da "exclusão". Freqüentemente, alguns usuários de drogas com um comportamento claramente antisocial são excluídos da sociedade. Podem ser encontrados em lugares específicos no centro ou em subúrbios pobres. Não têm lugar para morar, tem má saúde, muitos problemas de convívio social e criam problemas para o ambiente. É este grupo de usuários que torna visível o problema da droga e leva os políticos a entrarem em ação.
Um outro tópico a ser discutido é o papel da pesquisa. Especialmente a interação entre as políticas e as pesquisas são muito interessantes e importantes. Quem decide o que deve ser pesquisado e o que será feito com a informação obtida?
Um quarto exemplo do tema, que pode ser discutido no curso, é o papel da mídia. A mídia tem um papel muito importante na percepção do público a respeito da questão da droga. O sentimento de segurança por parte do público, a valorização da vida numa determinada cidade ou bairro não depende somente da experiência direta dos moradores, mas também do que eles ouvem e lêem na mídia. A influência da mídia na programação política também deve ser parte integrante de qualquer política de drogas.
Os treinadores
Uma boa seleção de treinadores é crucial para o sucesso do seu curso. Os treinadores devem ter muitas qualificações que não são fáceis de encontrar numa só pessoa. Têm que conhecer o campo da programação de ação política local, não devem ser muito rígidos de comportamento, ser flexíveis e abertos para pontos de vistas diferentes. Devem ter excelente habilidades comunicativas, estarem prontos para ouvir mas também intervir quando o processo do grupo estiver se movendo para direções pouco construtivas. Devem estar conscientes da contribuição de participantes individuais, do processo de grupo e assegurar que o curso corresponda às expectativas de todos.
Uma vez que estas qualificações são difíceis de encontrar numa só pessoa, é aconselhável trabalhar com dois treinadores, se possível, um homem e uma mulher. Estes podem dividir o trabalho de acordo com suas qualificações específicas. É desnecessário dizer que terão que trabalhar em conjunto, preparar bem o curso juntos e ter uma divisão definida de tarefas.
Também é aconselhável ter alguém para a parte de logística (contatos com o hotel, recursos audio-visuais, café etc.) para que os treinadores não precisem se ocupar com isso.
Lista de controle para a escolha do treinador "ideal" |
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Os especialistas externos/ conferencistas convidados
Estes devem ser contratados cerca de quatro meses antes do curso. Devem ser bastante conhecidos no campo, serem capazes de atrair e entreter as pessoas e comunicar-se com grupos relativamente pequenos. Na sua apresentação devem, por um lado, dar informações, e por outro lado, levar a audiência a discutir os assuntos em pauta. Devem estar preparados para dar de antemão, o material escrito para os organizadores. Devem poder participar pelo menos um dia inteiro no curso. Desta forma, você evita um vai e vem, deixando o grupo com perguntas sem respostas. É também aconselhável que eles participem da parte informal do curso.
Os organizadores do curso devem informar os conferencistas de antemão, sobre o conteúdo e o teor da apresentação. Isto pode ser feito por escrito, com posteriores discussões telefônicas.
Uma outra questão para se considerar é a sinergia entre os diferentes especialistas e
conferencistas externos. É bom que haja um equilíbrio em termos de:
Freqüentemente um especialista que você gostaria de convidar pode não estar disponível, portanto, é preciso ter uma reserva. O conferencista não disponível poderá sugerir um outro nome. Mesmo assim, não é má idéia consultar uma terceira pessoa para ver se a pessoa que foi indicada tem as qualificações necessárias.
No primeiro contato com o conferencista, detalhes financeiros devem ser discutidos abertamente. Despesas de viagem, de hotel (se a pessoa for ficar mais que um dia), alimentação, devem ser custeadas pelos organizadores. Os honorários dependem das qualificações do especialista convidado. Isto faz parte das negociações entre este e os organizadores. É importante que o acordo final sobre as finanças fique claro para todas as partes.
Lista de controle de uma carta para o conferencista convidado |
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Critérios para conferencista convidado |
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Os participantes
Na nossa experiência não tem sido fácil encontrar os participantes certos para este curso específico sobre política local de drogas. Em cada país, a política de drogas se desenrola de forma diferente. Alguns países têm uma política centralizada, deixando pouco ou nenhum espaço para iniciativas locais, enquanto que outros países têm uma política totalmente decentralizada, deixando todas as responsabilidades para as autoridades em nível regional ou municipal. Isto significa que a abordagem dos grupos-alvo é diferente em cada país. A maioria dos funcionários trabalhando com política de droga em nível local também têm outras responsabilidades além de "drogas". Eles não têm tempo ou verba para participarem de um curso de uma semana.
A questão dos grupos-alvo é importante. Você pode criar um ótimo curso mas se não houver participantes, todo seu trabalho terá sido em vão. Portanto, é aconselhável que você mostre o seu plano geral para uns responsáveis pelas políticas públicas para ver se, em princípio, estariam interessados em participar de tal curso.
Também é aconselhável que estejam a par da data das eleições locais. Antes das eleições, os programadores não farão um curso mas, depois das eleições, você poderá ter muitas "novas caras" no campo da política de drogas, especialmente em países onde os políticos indicam os responsáveis pelas políticas públicas. Portanto, o período de três a seis meses depois das eleições locais é perfeito para apresentar um curso.
Uma outra forma de abordar possíveis participantes é seguir o noticiário e ver que cidades têm sérios problemas com a questão da droga. Por exemplo, você vai encontrar notícias sobre bairros recusando novas instalações na área. É aconselhável enviar uma carta para a prefeitura e ver se algum responsável pelas políticas públicas estaria interessado num curso a respeito de política local de drogas.
O número certo de participantes para este curso é entre 12 e 16. Se você estiver na posição invejável em que houver mais candidatos do que lugares, há algumas maneiras de fazer a seleção:
Baseada em "quem chegar primeiro". Este é um sistema bastante justo e ninguém vai contestá-lo. Entretanto, não significa que você obterá a melhor sinergia e contribuição da parte dos participantes.
Baseada nas necessidades. Neste caso, as pessoas com pouca experiência mas muitas responsabilidades terão prioridade. Esta escolha significa que há pouca oportunidade para utilizar o conhecimento do grupo. Como essa questão é importante, é preciso ter cuidado com esta opção e ter a certeza de que há alguns responsáveis pelas políticas públicas com mais experiência no grupo.
Baseado em conhecimento e currículo. Este é o cenário "ideal" para os organizadores e treinadores do curso. Eles examinam o currículo específico dos candidatos e tentam combinar um grupo perfeito, tentando encontrar um equilíbrio entre experiência nos vários campos ligados à área, equilíbrio de gênero e equilíbrio de nacionalidades. A vantagem é que este será um grupo muito bom, totalmente orientado para a aprendizagem e interação. Por outro lado, a desvantagem é que o curso pode ter um caráter de "exclusividade".
Se os conferencistas falarem inglês, deve haver serviços de tradução ou então, os participantes devem ter um bom conhecimento da língua inglesa.
O local
É importante escolher o local certo para o curso. Em geral, o orçamento disponível e a escolha do hotel são os fatores principais quando se escolhe um local específico, mas este não é o melhor critério. Muitas vezes o hotel é bom , mas as salas de conferencia não são ideais.
Lista de controle para um "bom" local: |
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É evidente que na prática, é preciso estar disposto a fazer concessões. É importante que as salas de conferência sejam examinadas de antemão por alguém com experiência no assunto. Se você tem dúvidas, peça ao hotel para lhe dar uma referência de alguém que tenha usado essa sala de conferências.
O orçamento
Antes de tomar medidas definitivas para organizar o curso, você deve estar seguro do orçamento. Na maioria dos casos, você terá que se utilizar do apoio financeiro de uma agência, do governo, da Comissão Européia, etc. Um curso com poucos participantes é muito dispendioso.
Lista de controle das prováveis despesas: |
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Depois de ter feito o orçamento, você pode calcular as despesas para os participantes. Esta consiste no orçamento total, menos o dinheiro recebido de subsídios , dividido pelo número de participantes.
O Manual de leitura
Os participantes devem receber o Manual duas semanas antes do início do curso. Este manual de leitura tem dois objetivos:
- Pôr o participante no espírito do curso e prepará-lo para a discussão posterior
- Para ser utilizado depois do curso, como referência
Os treinadores e organizadores do curso fazem uma seleção dos artigos relevantes. Assegure-se de que a informação é recente e relevante para a situação local. Não deve ser muito longa e complicada, se não ninguém a lerá. O Manual deve ter entre 80 e 100 páginas (incluindo-se o plano geral do programa de treinamento, a lista de participantes, etc.). Cada artigo deve ser apresentado de forma clara e reconhecível ( por exemplo, com páginas coloridas entre os artigos). Outros pontos relevantes para o Manual são:
- O endereço do organizador deve estar visivelmente impresso na primeira e segunda página (com os números de telefone, fax e e-mail)
- Um índice claro
- Um prólogo escrito pelos treinadores descrevendo sumariamente a escolha de artigos
- Se possível, cada artigo deve ter um endereço de referência
Se possível, o Manual de leitura deve conter a informação sobre o programa. Isso tem a vantagem de que tudo estará num só livro e não se perderá informação. A desvantagem é que as "alterações de última hora" não estarão impressas.
Se a informação sobre o curso estiver incluída, deve conter:
Exemplos dos artigos usados nos Manuais de leitura EATI:
. The effects of Harm Reduction in Amsterdam, Ernst Buning & Giel van Brussel. In: European Addiction Research 1995; 1:92-98
. Drug Use and Drug Policy in Europe, Karl Heinz Reuband. In: European Addiction Research 1995,1 32-41
. City Hall and House, guidance for use by local authorities concerning large-scale manifestations and party drug use. Dutch Ministry of Health Welfare and Sports, April 1995
. Drug prevention in The Netherlands: an integrated approach, Ernst Buning, Hettie Rensink and Marjolein Bron. Presentation at "Substance Misuse prevention education, International Conference for exchange of information on best practice" November 20/21, 1966, Dublin Ireland
. Drug education: Programmes and Methodology, an overview of opportunities for drug prevention, by Wim Buisman, UNESCO, Paris, January 1995
. Aids prevention with injecting drug users in the former West Germany, a user-friendly approach on a Municipal level, Heino Stover and Klaus Schuller. In: The reduction of drug related harm, 1991
. Drug Nuisance Policy, Fact sheet no 6, Dutch Ministry of Health
. Drug policy: should the law take the back seat? Virginia Berridge. In: The Lancet, Volume 347, February 3, 1996
. Open Drug Scenes: A Cross-National Comparison of Concepts and Urban Strategies, R Bless, D.J. Koorf, M. Freeman. In: European Addiction research 1995,1 128- 138
. New trends in synthetic drugs in the European Union: epidemiology and demand reduction responses, Paul Griffiths, Louisa Vingoe and Karl Jansen, EMCDDA, November 1997
O dever de casa
Deve-se pedir a todos os participantes para fazerem o dever de casa antes do início do curso. Isto força-os a pensar no curso e é importante para se obter uma participação satisfatória durante o treinamento. Fazer o trabalho de casa é um referencial importante do programa. É possível pedir que alguns participantes dêem mais ênfase a uma questão específica. Por exemplo, se um policial estiver participando, poderia ser concentrar em questões relativas à ordem pública. Um médico se concentraria nos problemas médicos, etc. Uma parte do dever de casa será a formulação das expectativas em relação ao treinamento. A maior parte dos participantes estará muito ocupada com o seu trabalho de todos os dias e provavelmente só pensará no curso no momento em que entrar num avião, trem ou carro. Com o recebimento do manual e o pedido de que preparem o dever de casa, eles poderão pensar no curso antecipadamente. Isto é importante. Quanto mais claras forem as idéias a respeito dos possíveis resultados do curso, mais irão aprender. Isto evitará frustrações e será benéfico para todas as partes.
O pedido de dever de casa deve incluir uma lista de ítens que você quer que os participantes descrevam. O dever de casa não deve ser mais longo do que duas páginas escritas e o participante também deve estar preparado para fazer uma apresentação oral curta e/ou apresentar a informação num cartaz. Também é possível organizar uma reunião informal antes da conferência em que os participantes colocam os cartazes na parede , circulam, lêem e discutem.
Lista de controle para o dever de casa: |
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Os participantes devem receber uma requisição por escrito a respeito do dever de casa, incluindo a data de entrega. Todos os deveres de casa podem ser fotocopiados e ficar à disponibilidade dos participantes.
Após o treinamento
A maior parte das pessoas trabalhando na questão de drogas fica totalmente absorvida com seu trabalho. Embora elas possam vir a ter "boas intenções" durante o curso, estas podem ser totalmente postas de lado após o mesmo. Essa é a realidade e seria muita ingenuidade imaginar que você possa mudar este padrão. No entanto, você pode criar um número de mecanismos para tentar prolongar o efeito do curso. Cada curso deve ter um formulário de avaliação. É melhor pedir aos participantes para preenchê-lo durante a última sessão. É natural que os resultados sejam bastante positivos, e é de se esperar que todos estejam com um "alto pique" e muito entusiasmo em relação ao curso, ao grupo, aos conferencistas convidados, aos treinadores, etc. Portanto, darão um retorno positivo. Quando chegarem em casa e voltarem ao trabalho, os participantes poderão ficar mais críticos e perder algum do entusiasmo original.
Este é o momento para entrar em contato com eles. Primeiro você deve escrever uma carta dizendo do seu interesse em ter uma conversa eles, marcando uma hora em que eles possam dar atenção suficiente à matéria, sem serem interrompidos. Você pode usar uma lista de controle, por exemplo, usando o mesmo formulário que usou para o retorno. Inicialmente deve perguntar-lhes como se sentem em relação ao curso duas semanas depois do mesmo. Após ter obtido uma resposta generalizada, você pode entrar em detalhes, continuando com as perguntas do formulário.
Se houver uma grande discrepância entre a primeira e a segunda avaliação, você pode começar a discussão do porquê disso.
A melhor possibilidade de criar um processo contínuo e duradouro é convidar alguém para voltar a fazer um outro treinamento ou um treinamento de controle com o mesmo grupo. Na prática, isso será muito difícil pois as pessoas mudam de trabalho ou não têm permissão dos seus superiores para fazerem outros cursos.
Você também pode incluí-los na sua rede de contatos e ter certeza de que eles recebem correspondência relevante, avisos sobre conferências e reuniões. Em alguns casos, poderá convidar um participante para ser treinador ou conferencista num outro curso.
Acerca de seis meses após o curso, você pode contatá-los novamente para saber se eles puderam aplicar o que aprenderam. Você tem que ser muito preciso, senão acabará obtendo muita informação geral e vaga. Você também deve se dar conta de que é difícil indicar exatamente o que foi aprendido num curso, uma vez que se trata de um processo e as pessoas aprendem coisas o tempo todo em cenários diferentes.
Até agora discutimos a avaliação do ponto de vista dos participantes. Se você pretende organizar mais cursos, é importante também pedir aos treinadores e conferencistas que dêem um feedback. Com eles você pode fazer um acordo de negócios (eles foram pagos pelo trabalho) e portanto, pode pedir mais tempo deles para obter o feedback , do que dos participantes. É melhor ter um encontro direto, face a face com o(s ) treinador(es). Os conferencistas podem ser entrevistados pelo telefone.
Lista de controle de avaliação |
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A programação social
Quando as pessoas vão fazer um curso, necessitam relaxar. Se isso não ocorrer, terão problemas em absorver informações. No próximo capítulo discutiremos esta questão. Neste capítulo vamos considerar brevemente o programa social. Ainda que este seja sempre realizado voluntariamente, deve ser suficientemente interessante para atrair todos que desejarem participar. Isto pode ser muito útil para o processo de grupo.
O mínimo que os organizadores têm que oferecer é:
Se possível, seria uma boa idéia incluir uma atividade cultural, por exemplo, assistir a um concerto ou visitar um museu. As atividades esportivas (por exemplo, um jogo de futebol) podem interessar a alguns participantes. Se o curso ocorrer durante uma atividade esportiva internacional, você tem que se dar conta de que alguns participantes vão querer ir para o hotel ver o jogo.
Deve haver pelo menos uma tarde livre, uma vez que muita gente deseja fazer compras, por exemplo, para comprar presentes para a família e amigos. Se o curso for dado numa cidade onde os participantes não tenham estado antes, eles vão querer fazer um pouco de turismo. Algumas cidades têm um programa de uma hora de visita à cidade, de ônibus ou de barco. Por exemplo, durante a hora do almoço, isto pode ser incluído.
As despesas da programação social devem ser limitadas. Os participantes não se importarão de pagar a entrada para um museu, mas se tiverem que pagar 50 dólares por um concerto, você verá que alguns deixarão de ir com o grupo.
3. Criando um excelente clima de aprendizagem
O equilíbrio
O curso tem várias partes que devem estar interligadas e têm a ver com:
A introdução feita pelos treinadores deve ser curta. Por um lado, os participantes têm que saber quem são os treinadores mas, no decorrer do curso terão oportunidade de conhecê-los e então, 5 minutos por treinador é tempo de sobra.
A apresentação dos participantes tem duas partes: uma rápida introdução na sessão plenária (máximo 1 minuto por pessoa) e uma mais longa em sub-grupos (máximo de 10 minutos por pessoa). No próximo parágrafo há mais informação sobre este aspecto do curso, uma vez que isso diz respeito ao interesse ativo dos participantes.
As palestras dos conferencistas convidados devem ser distribuídas pelo curso. Devem durar, no máximo, 45 minutos. O conteúdo deve ser atual, interessante, bem apresentado (slides, retroprojetores, vídeos) e propiciar novas discussões. Encontros de sub-grupos devem sempre ocorrer antes e depois de tais sessões plenárias (fórmula sanduíche).
Todos participantes têm que apresentar seus trabalhos. Isto deve ser limitado a 15 minutos por pessoa em sub-grupos, seguidos de outros 15 minutos para perguntas e discussões. Se você estiver planejando duas sessões (cada uma de 90 minutos com três sub-grupos), cada participante pode apresentar seu trabalho.
Pelo menos uma sessão de 90 minutos deve ser dedicada ao role-play. É melhor fazer isto no terceiro dia, uma vez que o nível de atenção é o mais baixo no meio do curso e um role-play é um bom instrumento para manter todos alertas e envolvidos(ver parágrafo abaixo).
Deve haver espaço suficiente para discussão. Pedir para as pessoas apresentarem os "prós"e "contras" pode estruturar discussões, utilizando a votação , etc. Deve haver pelo menos duas discussões de 30 minutos por dia.
Em alguns casos, é possível organizar visitas locais a projetos na cidade onde o curso está sendo organizado. Isto é em geral muito apreciado pelos participantes e é encarado como uma pequena pausa, fora do curso. Os participantes podem estabelecer uma relação entre o que estão aprendendo no curso e o que vêem em prática durante a visita. No dia seguinte os treinadores podem integrar a experiência da visita local ao curso.
Apresentações de vídeo devem ser curtas. Trinta minutos é o máximo para um curso deste tipo. Se as pessoas quiserem ver vídeos longos, às vezes, é uma boa idéia propor isto antes ou depois da pausa almoço.
A ultima sessão do curso deverá ser dedicada à avaliação e feedback. Isto é muito importante, uma vez que os participantes podem comparar suas expectativas com aquilo que aprenderam no curso. Esta sessão deve também ser usada para criar um clima positivo no curso, em que as pessoas ficam entusiasmadas e são encorajadas uma vez em casa- a colocar em prática o que aprenderam durante o curso.
Participação ativa dos participantes
Quinze minutos após o início do curso, os participantes devem dizer alguma coisa. Esta poderá ser uma breve apresentação, tal como "Eu sou , minha nacionalidade é e trabalho em..." Mais tarde, deve haver espaço para apresentações mais longas.
A primeira manhã pode ser usada para a apresentação dos participantes e de suas expectativas em relação ao curso. Depois da curta apresentação de todo o grupo, este pode ser subdivido em pequenos grupos. Um método muito usado é pedir para alguém para apresentar, em sessão plenária um outro participante: num sub-grupo, "A" se apresenta.para "B", que está no mesmo grupo, toma notas e- uma vez de volta ao plenário- "B" apresenta "A". É claro que a informação deve estar correta. Depois de "B" ter introduzido "A", este deve ter a oportunidade de acrescentar alguma informação.
Uma outra forma de assegurar um interesse ativo é o "dever de casa". No capítulo II discutimos a importância de se pedir que o grupo faça o dever de casa. Este pode ser apresentado em pequenos grupos( por exemplo, grupos de 4 ou 5 pessoas).
É melhor que todos tenham apresentado seu dever de casa até o final do segundo dia.
Uma outra forma de envolver os participantes é através do role-play. Este pode ser realizado com alguns participantes para todo o grupo ou pode incluir todos os participantes. Em alguns cursos do EATI, fizeram-se role-plays apresentando uma " coletiva de imprensa". Situação: uma cidade deseja abrir alguns centros para usuários de drogas; há protestos nos bairros. O prefeito da cidade dá uma coletiva de imprensa com o chefe da polícia e o chefe dos departamentos de saúde. Todos participantes têm um papel definido (inclusive o tipo de personalidade que representam). Pelo menos dois participantes ficam na posição de observador.
O role-play é filmado e mais tarde, os participantes vêem no vídeo o resultado da coletiva de imprensa. Nas ocasiões em que este método foi usado nos cursos do EATI, foi muito bom para levantar questões importantes e estimular a discussão, tendo também ajudado algumas pessoas a superar um papel passivo.
Na sessão final, pede-se aos participantes que façam um feedback . Os treinadores utilizarão os objetivos que cada um estabeleceu para si próprio e eles terão que se referir a estes. Em geral, pode-se dizer que, pelo menos durante 50% do tempo, os participantes se mantêm ativos (discussões, apresentações, fazendo trabalhos etc).
O período de atenção
O período de atenção flutua durante o dia. Isto é normal. De manhã, as pessoas prestam atenção suficiente, a não ser que tenham ido muito tarde para a cama e tenham bebido demais. Durante os cursos em hotéis "longe de casa" muitas vezes as pessoas fogem à rotina. Vão dormir mais tarde do que o costume e bebem mais do que o normal. Estes cursos são cansativos (principalmente se for preciso prestar atenção e falar uma língua estrangeira). A combinação de um jantar pesado tarde da noite, com o consumo de mais álcool do que o costume, pode fazer com que a atenção não seja grande nas primeiras horas da manhã seguinte. Então, planeje alguma coisa de especial para a primeira hora. Depois da pausa do café, as pessoas estarão prontas para ouvir uma palestra. Esta pode ser uma apresentação técnica e difícil, mas não deve durar mais de 15 minutos. Aí deve haver uma pausa. Assim que a discussão começar, a atenção aumentará novamente. Os momentos depois do almoço são também muito difíceis, já que as pessoas estão fazendo a digestão e sentindo seus olhos ficarem muito pesados enquanto escutam as palestras. É melhor sair, visitar um projeto e então voltar e escutar uma outra palestra.
Um role-play depois do almoço também funciona bem.
Uma regra de ouro é variar bastante o programa em termos de conferencistas, grupos e de interesse. Se possível, deve haver pelo menos uma mudança a cada 45 minutos e uma boa pausa a cada 90 minutos. Durante a pausa as pessoas podem tomar café ou chá , irem ao toilete e - em caso de haver fumantes - fumar um cigarro.
Muitas vezes, algumas pessoas gostam de trabalhar até tarde. Isso não é uma boa idéia. O curso não deve durar mais de 6 horas por dia (3 de manhã e 3 de tarde). Se alguns quiserem trabalhar mais, devem fazê-lo em outro lugar e não na sala de encontro, uma vez que os participantes que não puderem absorver mais informação podem se sentir obrigados a isso. O treinador deve ser bem claro a respeito.
Problemas de idioma em relação aos conferencistas
O charme da Europa é a sua diversidade de culturas e variedade de idiomas. Quando se convida um conferencista de fora, pode-se escolher um expert que talvez não possa se comunicar na língua materna dos participantes. Nas reuniões oficiais da Comissão Européia, há a intervenção dos tradutores e todos podem falar o seu próprio idioma. No tipo de curso que tratamos neste Manual, partimos do princípio de que não haverá verba para estas traduções. Portanto, temos que utilizar nosso próprio talento comunicativo. Os treinadores devem abordar a questão do idioma antes de apresentar o conferencista externo. Se este quiser falar em inglês e inglês não for a língua materna dos participantes, deve-se pedir ao conferencista para que fale lentamente e todos terão que ajudar se alguém se atrapalha com o idioma (por exemplo, nas perguntas durante a discussão). Se um participante tiver realmente um problema em se expressar em inglês, pode-se pedir a alguém para traduzir. Mas isto só deve ser feito excepcionalmente porque atrasa o processo de grupo, e isso não é muito bom.
O processo de grupo
Se o grupo for fraco, o curso será um fracasso. Há muitas formas de um grupo se tornar fraco. Ainda que ninguém queira isso e ninguém queira perder uma semana, pode acontecer que o processos de grupo marchem numa direção em que conflitos, desentendimentos e frustrações sejam os ingredientes principais. Isso pode ser evitado se os treinadores ficarem alertas e agirem na hora certa. Gostaríamos de destacar alguns problemas que podem surgir e as formas de conduzi-los.
Resistência
Trabalhar na área das drogas não é fácil: os resultados são poucos e é quase impossível agradar a todos. Uma vez que não há nenhuma solução simples disponível, é fácil para as pessoas de fora criticarem o trabalho feito por experts na área da droga(incluindo até os responsáveis pelas políticas públicas sobre drogas). Para se proteger, muita gente da área apresenta seu ponto de vista categoricamente: " Esta é a minha opinião, não ouse questioná-la". Pode ser que eles não estejam abertos a comentários críticos e então, eles poderão achar que os comentários são um ataque ao seu trabalho, idéias, etc. Os treinadores têm que estar muito alertas a respeito disso e reformular comentários que possam ser interpretados como negativos e críticos, de uma forma positiva. Por exemplo, dizer que tais observações foram feitas mais por curiosidade e interesse do com a intenção de se criticar alguém. Quando um participante tiver um ponto de vista muito diferente do dos outros, pode ser uma boa idéia organizar um pequeno role-play, em que se pede a dois participantes que defendam o ponto de vista do outro. Isso pode ser feito num jogo com um vencedor. Neste caso, você cria uma situação onde só há vencedores. Ou você ganha uma discussão (isso é bom para seu ego) ou perde (mas seu ponto de vista vence). Tal debate público também é bom para que os outros participantes se dêem conta de que há mais formas de abordar a questão.
O que fazer quando um membro do grupo domina todas as discussões? Todos reconhecem esta espécie de pessoas: elas têm uma resposta para cada pergunta, uma opinião sobre todos os temas e gostariam muito de assumir o papel de treinador. Há certas coisas que o treinador NÃO deve fazer. Uma, é iniciar uma discussão aberta com essa pessoa. Isto dividirá o grupo. Outra coisa que não deve fazer é ignorar a tal pessoa. Quanto mais esta for ignorada, mais atenção exigirá. Uma forma de agir é envolver o grupo e pedir que este reaja.
Por exemplo, você pode dizer para a tal pessoa dominante, "A" : "Obrigado, "A" pelos seus comentários, eles mostram seu interesse pela questão. Eu gostaria de ouvir a opinião de outros membros do grupo. Talvez seja uma boa idéia ouvi-los". Subseqüentemente, você faz perguntas aos outros participantes do grupo. Mesmo que todos respondam em menos de um minuto, isto significa que a pessoa "A" ficará quieta por uns 10 minutos. Uma outra possibilidade é a de dar a "A" uma tarefa específica, por exemplo, a de escrever no quadro, encarregar-se do controle remoto do vídeo, colocar papéis no retroprojetor, ajudar alguém com uma tradução, ir à recepção para pedir mais uma rodada de café, etc. E, se você tiver sorte, "A" pode se tornar uma pessoa útil e um agradável membro do grupo.
O que fazer quando uma pessoa do grupo se torna um bode expiatório? Isso acontece na nossa frente e dificilmente podemos evitá-lo. A pessoa que se torna o bode expiatório parece saber provocar exatamente tal processo e alguns membros do grupo não perdem a oportunidade de incentivar isso. Pode começar com uma pessoa expressando uma opinião que não seja "politicamente correta". Por exemplo, uma pessoa pode dizer que um alto número de casos de Aids entre os usuários de drogas injetáveis , é uma boa coisa porque isto reduzirá o número de usuários. É muito importante a intervenção do treinador quando se faz um comentário deste tipo. Primeiro, dizendo claramente que nós vivemos num mundo livre e que cada um tem direito a sua própria opinião. Por outro lado, deve ficar bem claro que também partimos do princípio de que os direitos humanos básicos também são aplicáveis aos usuários de drogas. Se isto for colocado de uma forma simpática e aberta, poderá gerar discussões prós e contras e a pessoa que fez o tal comentário terá espaço para apresentar seu ponto de vista com mais sutileza. Assim, o problema fica resolvido no momento. Se a mesma pessoa faz ou diz outra coisa para se tornar o bode expiatório, talvez seja necessário para o treinador usar métodos de metacomunicação e discutir com os participantes o que está acontecendo. Na maioria dos casos isso resolve o problema.
RESUMO
Este Manual de treinamento da política local de drogas foi baseado na experiência do Instituto Europeu de Treinamento de Dependentes Químicos (EATI) em três cursos internacionais sobre a política local de drogas. Nestes cursos convidaram-se experts para fazer conferências e os participantes de vários países europeus trocaram conhecimento e experiência. Uma vez que o EATI reconheceu que a experiência acumulada nos cursos foi muito rica e que estes também poderiam ser muito úteis para os grupos locais, decidiu-se escrever um manual , a fim de divulgar esta informação para um público mais abrangente.
Este manual é destinado a dois grupos: (1) os responsáveis locais da política de drogas e (2) organizadores de treinamento. Para facilitar aos leitores, o manual foi dividido em duas partes. A Parte I descreve os ingredientes de uma política local de drogas e é destinada aos responsáveis locais da política e aos organizadores de treinamento. A Parte II é destinada aos organizadores de treinamento e tem muitas informações práticas e concretas.
A Parte I dá uma breve descrição dos elementos necessários a uma política de drogas, i.e.
- redução de oferta
- redução de demanda
- tratamento para abstinência das drogas
- redução de danos
No desenvolvimento da política local de drogas, é importante formular objetivos claros. Muitos participantes, muitas vezes, com interesses conflitantes estão envolvidos no processo. Na formulação dos objetivos também é necessário ter informação precisa sobre o uso e o abuso das drogas na sua cidade. Há muitas técnicas para se obter dados qualitativos e quantitativos de forma relativamente rápida e fácil. A Parte I também descreve os instrumentos necessários à implementação da política de drogas e o apoio que se necessita de várias redes de contato e do público.
A Parte I é, na sua maior parte, baseada na informação dada pelos participantes e conferencistas dos três cursos sobre política de drogas organizados pelo EATI.
A Parte II é muito mais prática e descreve os vários elementos necessários para se estruturar e ministrar um bom curso. Contem várias listas de controle que os organizadores do treinamento podem utilizar. Outros temas que eventualmente podem ser incluídos no curso são:
- . " ordem pública versus saúde pública"
- . exclusão
- . o papel da pesquisa
- . o papel da mídia
Uma questão importante do treinamento do EATI é o pedido de que os participantes façam seu "dever de casa". Neste dever de casa, os participantes descrevem sua situação local e as intervenções. Pede-se também que eles indiquem as expectativas que têm em relação ao treinamento. Depois do curso deve ser feita uma avaliação, a fim de permitir que os organizadores aperfeiçoem os cursos futuros. Na parte II também se descreve como se criar um bom clima para um treinamento efetivo. O programa deve ser equilibrado e assegurar um retorno positivo e construtivo por parte dos participantes. Uma outra questão importante é o período de atenção. Vários fatores que podem influenciar a questão da atenção são mencionados e há discussões sobre certos aspectos do processo de grupo.